Foi difícil saber que estava a sofrer, foi difícil saber que o ia perder dentro de dias, mas quando o meu pai me acordou e me disse:”Vanessa o avô morreu”, eu pensei que era um sonho e voltei a dormir. Quando dei por mim, acordei e vi que afinal não era mesmo um sonho!
Foi um dia difícil, muitas visitas em casa da minha avó, para dar os pêsames e uma palavra de conforto, era muita coisa ao mesmo tempo, cada pessoa que se aproximava de mim, era mais um desabar de sensações estranhas que invadiam o meu coração.
Que difícil que se torna perder alguém de quem se gosta tanto, que difícil que é perder uma pessoa por quem se tem grande estima, uma pessoa que sempre nos respeitou e sempre se preocupou connosco e nos ouviu e sempre que foi preciso nos deu um apalavra de conforto.
Aqueles almoços em casa do meu avô, em que estávamos os dois à mesa (enquanto a minha avó fazia alguma coisa afastada de nós), aquelas perguntas que eu fazia: “Com que sonhas porco?” e ele respondia todo contente com ar de maroto: “Com a bolota” e eu ria feita uma pirralha inocente que se ri de uma piada que aparentemente não tem piada, mas que pela forma como tinha sido dita fazia todo o sentido na minha cabeça.
Agora, ainda num passado bem presente, já éramos mais à mesa, já éramos quatro (eu, o meu mano e os meus primos) a mesa estava completa e com o passar dos tempos as brincadeiras iam acabando, a paciência ia se esgotando e as dores do meu avô aumentando cada vez mais com a doença (Parkinson), mas ainda ia aguentando, apesar de até os movimentos já estarem presos e por vezes precisar de um impulso para iniciar uma simples caminhada. Mesmo assim fazia por nos mostrar sempre um sorriso!
Sei que se não fosse a doença repentina que lhe apareceu, ele estaria comigo, connosco, por mais tempo, pois o Parkinson não mata, mas com a doença que lhe apareceu, no espaço de duas semanas ele partiu, partiu primeiro para o hospital e logo quando lhe foi diagnosticada a doença disseram que ele teria três meses de vida. Depois de saber disso, fui visita-lo ao hospital e ele (pareceu-me que) se despediu de mim, abraçou-me e disse-me palavras queridas, assim como eu lhe disse a ele:” Gosto muito de si, e quero que tenha muita força”, as lágrimas vieram aos olhos de cada um de nós, mas ele rapidamente se recompôs e começou com as brincadeiras dele. Mas esta Leucemia Galopante fez com que ele partisse, após uma semana para um coma que durou 24 horas. Após essas 24 horas ele acordou e recuperou a consciência rapidamente (coisa de estranhar após um coma que diziam os médicos ser uma partida para a morte, pois tinha mais umas horas de vida, estava preso por pouco). Essas horas de vida ficaram de parte após o seu acordar do coma, aliás, essas horas prolongaram-se por mais oito dias, e a 30 de Abril ele faleceu.
Faleceu após o meu estágio ter acabado e após o meu tio ter voltado ao trabalho em Angola (veio porque tinha de ver o sogro em vida). O meu avô partiu tendo falado apenas com o meu pai e a minha tia após o como, as palavras que disse à minha tia, com uma voz debilitada e quase como que se arrasta-se pelas suas cordas vocais, foi: “Estou quase a morrer filha”; tendo dito ao meu pai num suspiro, como que em tom de desabafo: “Ai filho…”, respondendo ainda “muitas” à pergunta feita pelo meu pai de que se ele tinha dores. E foram as únicas palavras que ele proferiu antes de partir.
Ele sentia-se fraco, até já mal os olhos abria, mas sentia a nossa presença e ouvia-nos, apesar do estado dele ter piorado de dia para dia, a ultima vez que o fui visitar a minha avó entrou comigo e disse: “ Oh Celestino, está aqui a Vanessa, queres vê-la, tu gostas tanto dela” e ele começou a tremer muito de emoção, pois estava fraco demais e não conseguia falar, eu dei a volta aquela cama de hospital onde ele estava deitado, e simplesmente respirava com um enorme esforço para se manter vivo, e fiz-lhe mimos na cara a na cabeça de forma a ele me sentir, de forma a sentir pela ultima vez a minha pele em contacto com a pele dele frágil e suada de tanta febre, ele agradeceu aquele meu gesto, eu sei que sim, ele parou de tremer e permaneceu sereno.
Para mim foi um choque vê-lo no estado em que o vi depois de ele ter acordado do coma, mas tentei ser forte. Ao vê-lo assim, meti na cabeça que talvez estivesse a ser egoísta ao querer que ele vivesse, pois ele ao manter-se vivo estaria a sofrer cada vez mais e que por muito que me custa-se aceitar a sua partida, seria melhor para ele pois assim não sofreria tanto e iria descansar em paz. Eu digo descansar em paz, porque em toda a sua vida, tinha sofrido, apesar de ser um Homem de bem e de sempre respeitar tudo e todos.
O seu respeito por todos e o respeito de todos por ele viu-se no dia 1 de Maio, o dia da sua partida definitiva (o funeral – detesto esta palavra), todos os seus amigos reunidos junto de nós a chorarem e a lamentarem a sua partida tão repentina, todos abraçados a nós e a falarem o quão bom o meu avô era.
Quando chegamos à igreja, após acompanharmos a carrinha onde ele vinha, eu tive medo da minha reacção quando o visse assim, sem que ele me pudesse ver nem falar, mas fui corajosa e olhei e não tirava os olhos dele. Fizeram-lhe a barba, coisa que eu tinha perguntado a minha mãe se lhe iriam fazer, pois ele adorava andar com a barba feita (era um Homem que gostava de andar com bom aspecto) e senti-me aliviada quando o vi assim sem barba, ia como gostava “apresentável” – como ele dizia, apresentava um aspecto pálido, mas sereno, pelo menos aparentava ter partido sereno, uma coisa boa após tanto sofrimento. E como sinal de respeito eu fui ao lado dele na carrinha para a sua murada final, após a cerimónia fúnebre, acompanhada pela minha mãe. Como ele gostava de mim eu senti que deveria fazer aquilo por ele e por incrível que pareça, este meu gesto fez com que eu me acalmasse e senti algo parecido com um alívio de alma, senti-me tão bem ao lado dele.
Acreditem que custou muito ver o meu pai a sofrer, a chorar e a gritar pelo meu avô, mas custou ainda mais ver o meu querido avô entrar na sua morada final, onde permanecerá para sempre.
Continuo e continuarei a gostar muito do meu avô Celestino !...